sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Jardim de Alah

Renato Máspero

De vez em quando eu passo um tempão na minha janela, distraído do mundo e olhando sem ver nada, cismando aleatoriamente ao sabor da memória.

Dia desses, passageiro do saudosismo, fui transportado para um passado remoto, quando freqüentador das areias quentes que se estendem das pedras do Arpoador até o canal do Leblon.

Me ví atravessando a arrebentação de belas ressacas, pegando jacarés, apreciando a sonolência das arraias que vinham pegar sol perto da areia e os rasantes dos peixes voadores um ou dois palmos acima do mar nos dias de calmaria.

Me ví ainda catando tatuís e disputando partidas de futebol na areia. Um bom tempo que, infelizmente, não vai voltar.

De repente meu pensamento estacionou no Jardim de Alah, em cujo canal tarrafas bem lançadas aprisionavam robalos, paratís e tainhas que atravessavam o canal em busca das águas mornas e ainda limpas da lagoa Rodrigo de Freitas, onde aprendi a dar as minhas primeiras braçadas.

Saindo dos devaneios, acredito que é possível acabar de vez com as constantes mortandades de peixes, desde que se estendam as paredes laterais do canal para além da arrebentação, tendo um quebra-mar para inibir a força da maré sem impedir a entrada dos peixes, o que evitaria o acúmulo de areia e o trabalho contínuo da dragagem no canal, que poderia até ter a sua profundidade ampliada.

Nossos engenheiros poderiam também projetar e construir sobre o quebra-mar uma plataforma em forma de passarela para que profissionais e amadores da pesca pudessem lançar suas tarrafas e suas linhas de molinetes ou de latonetes.

Será que alguém poderia levantar esta bandeira?

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