O BAR LUA NOVA
Renato Máspero
O Bar Lua Nova, antigo reduto da boemia acadêmica, fica situado no centro do Rio, bem pertinho de qualquer lugar.
Por mais estranho que pareça, só abre às 4 da tarde e só fecha quando o último cliente sai, o que ocorre quase sempre lá pelas 11 e pouco da noite.
É um verdadeiro “happy hour” para um selecionado segmento da nossa elite pensante, que por motivos diversos não tem pressa de ir para casa.
Música mecânica no volume ideal para permitir que se converse num tom discreto, mesmo porque às vezes o assunto não deve nem pode ser ouvido pelos que estão nas mesas vizinhas.
Boa iluminação, banheiro bem asseado, chope no ponto com ou sem colarinho, cadeiras confortáveis, garçons atenciosos e um telefone portátil para os clientes ligarem ou receberem ligações.
A freqüência, 85% masculina, recebe por vezes a visita de algumas livre-atiradoras, ansiosas por conseguir capturar um padrinho discreto, porém generoso e de preferência casado, para não ficar muito controlada.
Seus frequentadores, geralmente de bem com a vida, são executivos e profissionais liberais de raciocínio rápido e de boa cultura geral, que sabem fazer perguntas, trocam informações e emitem opiniões bem pensadas.
Num cartazete emoldurado e afixado perto da porta de entrada, a gerência da casa aconselha aos seus clientes que sería conveniente evitar a abordagem de assuntos tais como política e religião, porque costumam gerar discussões com gritantes divergências de opiniões.
Com cadeira cativa na mesa 21, que por uma coincidência calculada fica bem perto do banheiro, costumo me reunir com alguns amigos dia sim outro também, o que me permite estar constantemente atualizado em diversas áreas, sejam elas ou não de meu particular interesse.
Semana passada, por exemplo, se não me engano na Terça-feira, estavam à mesa o Dr. Andrade, médico ginecologista, o Alexandre, corretor de imóveis e o jornalista Ubirajara, mais conhecido como o Bira do Leme, quando a conversação girou em torno da progressiva liberdade que estão gozando as mulheres descasadas e as mal amadas, em relação às suas atividades sexuais.
-Água demais mata a planta e formiga que quer se perder cria asas, disse o Alex, argumentando que, embora para os homens não deixava de ser mais interessante, pela maior facilidade de relacionamentos esporádicos sem um comprometimento obrigatório, achava que elas com isso se desvalorizavam demais, passando a serem consideradas como damas descartáveis do baralho da vida, e de valor reduzido por não serem raras.
-Mas o que é que você esperava que acontecesse, se elas estão se igualando a nós em tudo, e além disso competindo em quase todas as atividades, tanto profissionais como culturais. Assim sendo elas passaram a proceder como nós, , em termos de sexo. Concorda comigo? argumentou o Bira.
O Dr. Andrade, possivelmente o mais conhecedor do assunto por ser, além de ginecologista, confidente de muitas delas, preferiu não emitir opinião sobre o assunto.
Em pensamento admitia que se os tempos mudam as pessoas também mudam, tanto para melhor como para pior.
Eu que, considerando serem as mulheres tradicionalmente monogâmicas, penso que a eventual mudança de parceiros nada mais é do que uma busca incessante e ansiosa para encontrar o seu par ideal e aí então mudar de comportamento, se dedicando apenas a um homem que a satisfaça como amigo e companheiro, mesmo que por ele não sinta amor ou paixão.
Como a liberdade é primordial para o ser humano, considero que ninguém pode julgar ninguém, se o que fazem não prejudica a outrem.
Como nada mais foi dito nem perguntado, passamos a falar sobre o absurdo das taxas de juros, que trouxe o consenso para a mesa.
Já eram 8 horas da noite e eu precisava ir embora porque tinha que me encontrar com uma adorável criatura, por sinal descasada.
Rio, 31 de Maio de 2.003
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
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